MANAUS, ENTARDECENDO...

O porteiro me deu as correspondências da semana.

No elevador, além da mala, as recordações de Manaus.

A amada Mariângela e sua filha Giulia, os pais Aparecida e Juarez, seus netos Lucas e Giovani, filhos da Silvana e do primogênito Marcos, Antônio Carlos, Gustavo e Roberta, todo o clã dos Baldim Beraldo acolhidos pela caçula Ana Lúcia e seu marido Celso, amabilíssimo, em sua maravilhosa casa nova, no bairro de Ponta Negra, às margens do Rio Negro.

Figura marcante a de Osíris Silva, pela inteligência e cultura, conversa agradável durante as visitas ao INPA e ao famosíssimo teatro de Manaus. E as peixadas oferecidas pela sua esposa Arabi? Indescritíveis... Tudo por causa do batizado da Isabella e do Guilherme, o casal de filhos da Ana Lúcia e do Celso, netos de Arabi e Osíris, de Aparecida e Juarez. Com direito de constatar que os rios Negro e Solimões se encontram para formar o Amazonas, mas não misturam as suas águas, porque o segundo, é mais denso, mais frio e mais veloz.

Vendo se havia alguma conta a pagar, noto um envelope marrom contendo um livro. Remete-o Dom Benedito de Ulhoa Vieira, arcebispo emérito de Uberaba. Alegria. Pus-me a lê-lo imediatamente. E não resisti a escrever esta passagem.

Corria a década de 70. Tempos do general Médici... Toca o telefone, já passava das oito da noite.

- Marcos?
- Sim, quem é?
- Pe. Benedito.
Parece que quanto mais santa, mais humilde a alma.
- Sim, Dom Benedito, tudo bem?
- Marcos, você sabe onde o José Roberto Malufe mora? O Malufe do TUCA.
- Sim Dom Benedito, ele mora na Oscar Freire, é perto daqui.
- Então se prepare que eu estou passando aí daqui a pouco e no caminho eu te explico.

Dom Benedito vem dirigindo seu fusca branco, entro no carro e vou ensinando o caminho. Enquanto isto, ele me explica que ficou sabendo que o Malufe iria ser preso, provavelmente no dia seguinte, e por isso queria avisá-lo o mais rápido possível.
Tocamos a campainha várias vezes e nada. Malufe já não estava mais em casa. Dom Benedito, com uma coragem ímpar, escreveu um bilhete, assinou-o e o escorregou-o por baixo da porta. Isto porque talvez Malufe de nada desconfiasse e tivesse saído apenas para jantar fora, por exemplo. Mais tarde soube que Malufe soubera e se mandara.

Quem não viveu a ditadura como exilado interno não tem idéia do significado do gesto de Dom Benedito.

Infelizmente, Malufe não poderá ler esta crônica. Há anos o câncer na coluna o levou.

Dom Benedito continua cheio de vida. Na sua carta de quinze de dezembro passado, agradecendo o livro “Direito e Economia” que publiquei e lhe enviei, comenta: “Estou aqui em Uberaba desde 78. Portanto há 31 anos! Velho, velhíssimo, vivendo o 90º ano de vida ( já tenho 89!!!), ainda dou aulas no seminário e escrevo semanalmente no jornal daqui.”

Que maravilha! Por isso o livro que me enviou leva o título “Entardecendo”, escrito em comemoração ao seu Jubileu de Diamante de Sacerdócio, ocorrido em 08/12/2008. Parabéns, D.Benedito!

Comecei a conviver com Dom Benedito ainda na PUC, ele era o pároco universitário. Depois profissionalmente, uma vez que ele era o Vigário Geral da Arquidiocese de São Paulo e eu trabalhava com o papai, empreendedor do Cemitério Gethsemani para a Mitra Arquidiocesana de São Paulo.

Mas, dois fatos religiosos marcaram nosso convívio e nossa amizade. Eu tinha me afastado da Igreja e da fé. A morte inesperada, o avião caiu na serra do mar, de uma pessoa conhecida, me abalou e eu me reconverti pelas mãos de Dom Benedito. Em conseqüência, pedi, e ele aceitou batizar minhas três filhas, a Camila já com quatro anos e tanto. Assim, Dom Benedito é o padrinho da Camila, da Lucila e da Letícia. Júlia, a caçula, ainda não havia nascido.

A leitura do “Entardecendo” elevou o meu espírito, abrindo-o, novamente, à Graça...

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