sexta-feira, 21 de junho de 2013

A VOZ DAS RUAS II


Inicio recuperando informação do Datafolha, de 20% de votos brancos e nulos nas últimas eleições. Significativamente, dois terços destes eleitores, segundo o mesmo instituto, tinham menos de vinte e cinco anos de idade. Num colégio eleitoral de aproximadamente 180 milhões de eleitores, são ao redor de 24 milhões de jovens que manifestaram descrença na democracia representativa. E na passeata que saiu do Largo da Batata em 17/06/13, o Datafolha apurou, mais da metade dos participantes tinham menos de 25 anos.
Há, pois, segundo penso, um duplo conflito que se interconecta para desaguar em uma posição de cidadania, de manifestação a partir da condição de cidadão, com direitos oponíveis ao Estado, do qual se reivindica seja republicano na aplicação dos recursos. É, em primeiro lugar, um conflito de gerações, já que se considera uma geração a cada vinte e cinco anos.
Ademais, é, também, um conflito de era, já que estes jovens pertencem à era da Internet, reflexo de uma profunda mudança na base material da sociedade, possibilitada pela revolução tecnológica digital. Lembremo-nos, a web world wide veio em abril de 1993. Conflito, pois, em face das gerações pré-Internet, enclausuradas em instituições que já não refletem as mudanças havidas na infra-estrutura técnica da sociedade, fibras óticas, etc.
Por isso que o constitucionalista Canotilho cobra dos juristas, em livro publicado em 2006, que pensem nos equivalentes jurídicos da democracia eletrônica, a fim de construir a superestrutura legal que lhe corresponda. A premissa, por óbvio, tem de ser a possibilidade de participação direta dos cidadãos, online, nas decisões políticas que interessem ao bem comum do povo. A juventude tem pressa!
Neste sentido, lamentar que os mais de um milhão de brasileiros insatisfeitos, participantes das passeatas neste junho de 2013, em sua maioria jovens de menos de 25, não admitiram a presença dos partidos políticos é não entender o que acontece. Acusá-los de antidemocráticos já é revelar miopia cognitiva. Significa não compreender que os jovens cidadãos “internetistas” visam uma democracia eletrônica online. Pois nasceram na era informacional, da informação em cascata, de equivalências em cadeia, no contexto da rede virtual, que para eles é o real, São ‘netizens’. O real é virtual e o virtual é real!
 Mas há um aspecto mais profundo, nesta queixa que defende a presença dos partidos políticos e maldiz os manifestantes como se portando de maneira antidemocrática. Ele aparece quando a crítica introduz a disjuntiva, democracia através de partidos ou ditadura, o que ouvi do Ministro Gilberto Carvalho, em ‘A Voz do Brasil’, disjuntiva repetida pela Presidenta Dilma, em seu pronunciamento de hoje, à Nação.
Ora, aferrar-se a esta disjuntiva mostra o atraso da mente humana em face do avanço material da sociedade, demonstra uma defasagem, um gap entre as possibilidades da revolução tecnológica digital na política e as categorias mentais presas à era pré-Internet. Relembre-se que a mente humana sempre corre atrás do avanço material da sociedade. É o que a sabedoria popular demonstra muito bem quando diz que a “ficha demora a cair”.

A democracia online, pois, dos jovens de menos de vinte e cinco anos não carece de partidos políticos para intermediar suas demandas. Bastará clicar! O grande problema é, primeiro, reconhecer esta nova realidade. Segundo, em termos políticos de construção das instâncias decisórias, ajustar as instituições políticas à era da Internet e caminhar na direção da democracia direta online.

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